sexta-feira, 12 de julho de 2013

Cristianismo: Intolerâncias e Distorções

Depois de ler sobre a tolerância religiosa  (Carta sobre a tolerância, de J. Locke, e Tratado sobre a tolerância, de Voltaire), penso que esse é um assunto que está longe de estar bem resolvido. Muitas conquistas surgiram desde que tais textos foram escritos, como o Estado laico e a liberdade de culto. Porém, ainda há muita intolerância. De todos os lados.
 
Como se não bastassem os religiosos atacando os ateus como sendo a lástima do mundo, os ateus também atacam o cristianismo como se fosse o responsável pelas mazelas da contemporaneidade. Temo discursos intolerantes, seja de ateus, seja de religiosos. Não podemos, todos nós, abrir mão do certo/errado, bom/mau, preto/branco, e aceitarmos que dentro de cada um de nós (seja ateu ou cristão) existem a possibilidade tanto para o bem quando para o mal? Porque não podemos ver que o mal não está no sistema de pensamento do outro, mas na vontade e na escolha que existe em mim? Não podemos ter um discurso mais tolerante e complexo, que acolha nuances de cinza?
 
Nessas nuances de cinza caberiam, por exemplo, a distinção entre cristianismo e religiões cristãs. Pois pessoas atacam o cristianismo quando deveriam atacar a religiosidade que distorce o cristianismo. É comum ver ateus argumentando que o cristianismo é o culpado dos males do mundo contemporâneo. É preciso explicar que muito do que se prega por aí "em nome de Jesus" NÃO É CRISTIANISMO. Sei que parte da responsabilidade por esse mal-entendido é dos que se dizem cristãos e não são (e não é nenhuma novidade que os hipócritas existem em todo lugar, em todas as épocas). Mas a outra parte da responsabilidade é dos próprios ateus, que confortavelmente aceitam a versão distorcida como sendo a verdadeira e pronto. Sem maiores investigações, criticam sem conhecer.
 
 Nesses tempos de ignorância religiosa, é até compreensível (em parte) argumentos como os dos ateus. O que se vê hoje no Brasil é de chorar. A Teologia da Libertação, que resistiu contra a ditadura no país e teve papel importantíssimo na instrução e desalienação do povo, hoje é uma sombra do que foi. O neopentecostalismo cresce nos moldes do neoliberalismo: individualismo, falta de consciência histórica, foco no dinheiro. O protestantismo histórico calado e acuado (é possível escutar por aí algumas boas vozes, mas de maneira geral sem muito impacto social), com uma teologia mais de éter que de carne e osso, mais de céu do que de Terra . E assim caminhamos, assim vamos por um caminho muito, mas muito longe do que seria o cristianismo... 
 
Porém, isso tudo não serve de desculpa para aqueles que atacam o cristianismo. É fácil acusar todo muçulmano de "terrorista", todo drogadicto de "fraco", todo louco de "doente", todo homossexual de "anormal", toda estuprada de "vadia". Assim como é fácil dizer que o cristianismo "aliena" e "aprisiona" por causa dos hipócritas e da religiosidade. É fácil ver as coisas pelo ponto de vista viciado de uma sociedade que rotula e culpabiliza a vítima. Sim, nesse caso, eu comparo o cristianismo com uma vítima. Porque ele é vendido, esvaziado, travestido e embrulhado em mentiras todos os dias, seja por lobos ganaciosos, seja por ovelhas acomodadas. É em defesa do verdadeiro cristianismo, muito raramente ensinado hoje em dia, e quase sempre "adornado" com muito ritual e pouca atitude, que eu escrevo.
 
Atacar o cristianismo, além disso, é vago e ignora a complexidade de um sistema de pensamento que admitiu infinitas interpretações desde a vinda de Jesus. O que se ataca, especificamente? Qual parte? Porquê? É fácil lançar flechas a esmo, mas quem acerta o alvo dessa forma? Acerta-se qualquer coisa, acerta-se qualquer um. Ataques contra o cristianismo de maneira geral têm acertado, por exemplo, pessoas como Martin Luther King, que era cristão e lutava pela igualdade racial; é atacar Frei Betto, que foi preso em 1969 por ser contrário à ditadura; é atacar John Locke, que era cristão e defendia o Estado laico na época de reis absolutistas; é atacar todos os outros cristãos que, ao longo da história, defenderam causas nobres e justas movidos por ideais cristãos. 
 
Enfim, eu não sou atéia, mas respeito que seja. Não acho que alguém é "coitado" ou menos inteligente por ser ateu, como se ouve por aí. Apenas fez uma escolha diferente da minha para ler o mundo e a vida. Seria ótimo se tolerassem minha religião da mesma maneira que eu os tolero. Mas também não me considero religiosa. Não quero me colocar no balaio de gato que é hoje a religião cristã no Brasil. Sou apenas uma ovelha que escuta a voz de um Pastor em meio a tantas vozes estranhas e que se recusa a entrar no rebanho dos lobos em pele de cordeiro. E, por favor, façamos TODOS distinção entre as vozes que ouvimos por aí. E que as vozes de intolerância e ódio sejam substituídas pelas vozes que pedem por tolerência, por paz, por justiça, por igualdade, por amor ao próximo... Valores que eu defendo com base no cristianismo.

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